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Tabagismo – Uma doença pediátrica

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Eu, como pneumologista, sempre me interessei pelo “vício do cigarro”, o maior problema de saúde pública do planeta.

Dr. João Paulo Lotufo

Médico Pneumologista

Eu, como pneumologista, sempre me interessei pelo “vício do cigarro”, o maior problema de saúde pública do planeta.

Como asmático, não consigo chegar perto de pessoas fumantes, pois começo a espirrar e a tossir.

Interessado no assunto, freqüentei em 2001 dois congressos que tratavam exclusivamente do assunto Tabagismo.

Os temas mais tratados em todos os congressos de Pneumologia Clínica são as complicações pulmonares do tabaco: câncer, enfisema e pneumonias intersticiais. Em nenhum momento eu ouvi alguma palavra sobre como evitar que os adolescentes começassem a fumar.

Pesquisando uma escola de classe alta em São Paulo, entrevistei 1.000 crianças através de um questionário e cheguei a seguinte constatação:

• Na idade de 7 a 10 anos, uma em cada cem crianças já havia fumado um cigarro inteiro e na idade de 11 a 14 anos 5 em cada cem já havia fumado um cigarro inteiro.

• 98% das crianças não gostavam que as pessoas fumassem, mas 2,5% delas achavam que vão fumar no futuro. O problema maior é que, de 15 anos em diante, 30 a 35% dos jovens estarão fumando. A idade em que se começa a fumar está na faixa etária de atuação do pediatra, no ponto de vista médico, mas isto nunca foi discutido pelo ou com o pediatra.

Com a guerra anti-tabágica, o fumo passivo entrou em cena. Vinte por cento a mais de câncer de pulmão em esposas não fumantes de maridos fumantes comparado com esposas não fumantes de maridos também não fumantes é de se preocupar.

Vinte e cinco por cento a mais de infarto do miocárdio, também acompanha o tabagista passivo adulto.

Nas crianças fumantes passivas (50% delas o são) há aumento de otites, aumento de broncopneumonias, aumento de asma, aumento de visitas hospitalares em pronto atendimentos e o dobro de morte súbita em lactente.

O enfisema pulmonar (fibrose pulmonar) vai progressivamente dificultando a troca de oxigênio, não perceptível pois a relação cárdio-respiratória vai se compensando.

O coração trabalha mais e não se percebe a falta de ar, até que um dia há uma descompensação e a falta de ar aparece.

Ela é irreversível, sendo então tarde para uma providência adequada. A tromboflebite obliterante, que progressivamente vai diminuindo o calibre de vasos sanguíneos também não é perceptível até que comece um formigamento no membro inferior ou superior por falta de oxigenação dos tecidos. A necrose ou o apodrecimento do membro em questão pode levar a amputação em poucos dias. O câncer de laringe pode obstruir a via respiratória sendo necessário se fazer traqueostomia para facilitar a respiração.

Estas situações são desprezadas pelos novos fumantes, mas lembre-se que temos casos de amputação de membros aos 28 anos de idade, não sendo tudo isto coisas que ocorrem em pessoas idosas.

A introdução precoce do tabagismo em nossos jovens é mais assustador ainda. Muito discutimos sobre o porque disto ocorrer. Os fatores desencadeantes de início precoce do fumo são:

• pais fumantes: quando me descontrolo e faço coisas erradas, minha esposa me alerta que o exemplo é a melhor educação para os filhos. Eu faço algumas coisas erradas, mas o exemplo do cigarro não deixarei para meus filhos. Tenho na lembrança a figura de meu pai eliminando fumaça em bolas e eliminando fumaça pelos ouvidos. Seu caximbo era famoso e foi enterrado com um entre suas mãos. Seguramente não sabia o mal que esta imagem poderia fazer. Felizmente nenhum de meus irmãos fumam. Meu tio era alto dependente da nicotina e seus filhos fumaram intensamente e também alguns netos. A alta dependência deve Ter influência genética. Na minha casa não se fuma, nem as visitas mais íntimas, conhecidas fumantes: -É do portão para fora, aqui dentro não.

• Oferta de cigarros em casa: Na década de 60, não se fazia ainda idéia do malefício do fumo. Na minha casa havia uma cigarreira de prata com cigarros para as visitas. Era chique. Foi dali que exoerimentei alguns cigarros com meus amigos. A oferta fácil leva à possibilidade de vício. Qual foi o pai fumante que fez seu filho experimentar alguns cigarros? Dona Terezinha que depõe comentários neste livro nos conta que o primeiro cigarro foi o pai dela que forneceu: achava bonitpo uma mulher que fumava.

• falta de rigidez na educação: como é que 1,5% das crianças de 7 a 10 anos já fumaram um cigarro? Hoje os filhos mandam nos pais e dizer não fica cada vez mais difícil. • desprezo da possibilidade de vício pelo adolecente: eles sempre dizem que fumam porque querem e podem parar a qualquer momento. Mas ignoram que de cada 3 que se iniciam no tabagismo, um vai fumar o resto da vida. • ignorância em relação às doenças futuras: um jovem não pensa em doenças futuras. Procuramos trabalhar este problema atual relacionando a incompatibilidade do fumo com esportes, alterações na atividade sexual, fator este importantíssimo para o jovem de hoje. Presenciei uma troca de maço de cigarro com a famosa foto da impotência sexual sendo trocado por um maço com foto de câncer. “Impotência não, me dê um de câncer”. Mas o que meu colega Bernardo Ejzemberg sempre relata o fato do mundo estar cada vez mais sem visualização de um futuro sadio para o nosso jovem. O que enxerga o nosso jovem? Qual a qualidade do mundo que estamos passando para eles? Guerras, desemprego, insegurança ou falta de segurança em um futuro não muito promissor. Portanto, como o jovem vai se preocupar com os riscos do tabagismo se não há do ponto de vista deles alguma possibilidade de um mundo melhor? Tive a oportunidade de ouvir Dr José Rosemberg falar sobre este tema, ouvindo-o chamar o Tabagismo de uma Doença Pediátrica. Aos 94 anos de idade, me emociona o empenho deste espírito jovem na luta anti-tabágica e a lucidez de perceber que temos de evitar que o jovem se inicie no tabaco, e não ficar gastando tempo e fortunas para tentar retirar o cigarro de cincoentões já na beira de um ataque de nervos, ou de um ataque cardíaco.

GRUPOS DE APOIO PARA PAIS FUMANTES

Dr João Paulo Becker Lotufo

Iniciei no Hospital Universitário um trabalho de alertar os jovens e seus pais, além dos médicos, residentes e alunos sobre o problema do tabaco. Os alunos com a introdução de aulas sobre tabagismo no curriculum escolar da Faculdade de Medicina da USP, os residentes com aulas e insistência dos temas nas visitas médicas, e os pacientes e crianças num corpo a corpo diário. Percebemos que é muito mais preocupante para os pais saberem que a bronquite ou a falta de ar de seus filhos pode ter como uma das causas desencadeantes a fumaça do cigarro dos pais.

Dói muito mais uma doença e problemas nos filhos do que a possibilidade de câncer e enfisema 50 anos.

Percebemos que fica mais fácil encaminhar os pais fumantes para um grupo ambulatorial anti-tabágico, pois o filho pequeno numa tenda de acrílico recebendo aflitivamente oxigênio dói mais. E dói muito mais. Com a inclusão de uma frase anti-tabágica no receituário impresso no hospital, passamos a estimular uma apresentação do tema, gastando um minuto de minhas consultas falando do cigarro. Assim criamos o primeiro ambulatório de pais fumantes de bebês chiadores. Esta terapia em grupo, chamada terapia cognitiva-comportamental, nada mais é do que um “Vigilante do Peso” para o tabagismo. Através de encontros semanais, com orientações reais sobre a história do tabaco, transmitimos noções reais sobre o mal que pode acontecer, vídeos de depoimentos sobre pacientes que passaram por problemas de saúde relacionados com o cigarro, noções nutricionais para que não se ganhe peso com a diminuição do cigarro, noções de atividade física para aumentar o gasto calórico, etc… Estimulamos as diferentes técnicas que são criadas por cada um individualmente, pois sabemos que não há “varinha de condão” para se parar de fumar.

Cada um cria o seu próprio método:

• diminuir um cigarro a cada maço fumado: passar de 20 para 19, depois para 18 e assim sucessivamente. Método muito lento para o meu gosto.

• Não comprar mais cigarros: você pode passar a bicar cigarro dos outros, até que você fique conhecido como o maior bicão da história. Como os seus amigos vão fugir de você, talvez este método funcione. •

O dia D: marcar um determinado dia para fumar seu último cigarro E PARAR DEFINITIVAMENTE. Este método é para os mais machos, mas funciona para muitos. Um participante do grupo escolheu o dia 24 de abril para parar de fumar. Brincava que este era o dia que sua sogra saira de casa. Conseguiu parar de fumar quando chegou este dia.

• Dificultar ao máximo o acesso ao cigarro: um executivo entregou o seu maço de cigarro para a secretária e para fumar ele tinha que pedir a ela um cigarro. Este constrangimento dificultou o acesso ao tabagismo para este ex fumante. Certo dia, com síndrome de abstinência, atirou o cinzeiro na secretária que não queria lhe dar um cigarro. Conseguiu parar de fumar e sua secretária continua trabalhando para ele. Dois milagres juntos.

• Proibição de cigarro em local de trabalho: No Hospital Universitário como em uma empresa como outra qualquer, 25% dos funcionários eram fumantes. Com a proibição do fumo internamente, estimo que metade dos funcionários diminuíram em 50% o consumo de cigarros, pois dificultou-se o acesso a este procedimento anteriormente rotineiro. Um funcionário de outro edifício da USP chamava sua chefia direta de vários nomes que não posso repetir aqui, pois sua chefe o advertiu por escrito, pois não cumpria as normas da Universidade de não fumar dentro dos edifícios. Estava tão bravo que não percebera que desde este dia havia diminuído em 50% o número de cigarros consumidos durante o dia de trabalho. Uma farmacêutica do hospital nos contou que foi fundamental para parar a proibição do cigarro no local de trabalho. Sabia que a partir de 1/02/2005 , o fumante dentro do prédio estaria sujeito a advertências em currículo, e isto a pressionou a largar o cigarro.

Como Tornar o seu local de trabalho livre do cigarro

Dr João Paulo Becker Lotufo

Razões para tornar a sua casa, o seu local de trabalho ou sua empresa livre do cigarro – adaptado do Rede Europeia dos Serviços de Saúde Sem Tabaco (RESSST) :

1. A prevenção e o controle do tabagismo faz parte da missão de qualquer indivíduo: todos podemos ser agentes de saúde.

2. A implicação dos responsáveis na família ou nas empresas é fundamental: se o pai da casa ou o diretor da empresa ou escola ou hospital for um fumante, meus pêsames: ” ou você o convence a parar de fumar , ou você o convence a parar de fumar “, pois fica muito difícil um trabalho eficaz se os interessados não derem o seu apoio.

3. Este processo se desenvolve passo a passo e cada local pode seguir o seu próprio ritmo: mas não seja muito lento, apesar de cada um ter o seu tempo.

4. A responsabilidade de um incêndio por causa do cigarro pode ser atribuída ao fumante: 42% dos incêndios hospitalares na Europa são atribuídos a fumantes e seus cigarros. Tenho um paciente jovem que dormiu com o cigarro aceso e incendiou a cortina do seu quarto, além de sua orelha direita. Isto pode ocorrer em qualquer local.

5. A falta de uma política anti-tabaco pode gerar conflitos entre as pessoas: quem já não viu uma discussão em um restaurante na zona de transição do lado fumante ou não fumante? Perda de tempo total aguardar na fila, esperando um local para não fumantes, pois após a dosagem de nicotina no ambiente é igual em todo o restaurante. Meu filho deixou de ir na casa da sua avó quando ela recebia suas amigas, pois várias eram fumantes e sua rinite piorava intensamente.

6. Uma casa ou empresa sem política anti-tabaco é geralmente mais suja: impedindo o fumo dentro e a dez metros do Hospital Un iversitário, diminuímos a sujeira de bitucas de cigarro em torno do prédio, concentrando-a no fumódromo montado nas proximidades. Meu tio era mestre nos almoços de Domingo em acumular bitucas de cigarro nos canteiros perto de sua poltrona favorita.

7. Uma política anti-tabaco bem conduzida mobiliza positivamente as pessoas. Os filhos são pessoas importantes no abandono de cigarro por parte de seus pais. Em uma palestra numa escola, um certo pai confirmou que estava assistindo a palestra porque o cigarro o estava afastando de seu filho. O filho tinha uma grande rinite e não chagava perto do pai que ” fedia ” cigarro.

8. Material de informática, os revestimentos e os sistemas de climatização, resistem muito mais tempo num meio sem tabaco.

9. Para os freqüentadores de uma casa ou empresa ou hospital, a imagem da instituição é mais positiva coma luta anti-tabágica.

10. Ser um local para se morar ou local de trabalho sem cigarro é uma vantagem na acreditação da Instituição ou de seu próprio lar.

Perguntas e Respostas

1. Porque alguns conseguem e outros não conseguem parar de fumar? Porque a dependência química da nicotina varia de intensidade. São fracos dependentes da nicotina 20% da população, 30% tem dependência mais elevada, 30% superior a média, 15% muito forte e 5 % tem fortíssima dependência. Esta é uma das razões de que parar de fumar pode ser mais difícil para alguns.

2. Como posso saber se sou fraco ou forte dependente de nicotina? De maneira rápida, quanto maior o tempo do acordar até o primeiro cigarro, maior a dependência química. Uma hora de espera sugere fraca dependência e acordar a noite para fumar sugere fortíssima dependência. O número de cigarros também nos indica a dependência dq nicotina: menos de vinte cigarros é igual a fraca dependência e mais de 30 ou 40 cigarros uma forte dependência.

3. Qual outra dependência existe? É só a dependência Química? Existe também a dependência comportamental. Você fuma há 20 anos e tem o hábito de faze-lo constantemente após o café, após sexo, após a cerveja. Isto também é difícil de se quebrar o hábito. Também pode estar relacionado com o lado psicológico, pois quantas vezes ouvimos que a pessoa ficou nervosa e voltou a fumar.

4. É verdade que quem fuma mais é o menos instruido? Realmente, o analfabeto fuma mais do que quem cursou o nível primário, que fuma mais do quem fumou o nível secundário e que fuma mais do que o nível universitário. Estudantes de medicina estão fumando bem menos do que a média da população, mas ainda encontramos médicos que fumam e são grandes dependentes da nicotina.

5. Há algum outro fator que se soma ao tabagismo no sentido de um mau prognóstico? Morre mais obeso fumante do que magro fumante, seguido de gordo não fumante , seguido por último de magro não fumante. Quem lembra do apresentador de televisão do programa X TUDO, obeso fumante de 40 cigarros por dia, que não se encontra mais entre nós. Excelente programa este, o X TUDO.

6. Por que nos Estados Unidos os fumantes doentes ganham ações milionárias contra as industrias tabaqueiras, e no Brasil não? Por que a justiça americana sabe que as industrias já sabiam que a nicotina do tabaco era uma droga viciante, e insistiram na produção do cigarro. Sabem que o vício do tabaco é uma doença (dependência de nicotina – com código internacional das doenças = CID F 17.2). A justiça brasileira diz que você fuma por que quer, e não considera o tabagismo uma doença de dependência de tabaco produzido por quem já sabia que a nicotina era o vilão da história.

Frases dos anais das indústrias produtoras do tabaco na década de 50:

• “Nosso negócio é vender cigarro com nicotina, por que dá dependência.” • “Nosso negócio é vender cada vez mais cigarro com nicotina forte, pois cigarros fortes causam mais dependência”

• “O sucesso comercial é maior quanto maior for a dependência da nicotina”

7. O Brasil produz tabaco, não produz? O Brazil é um dos maiores produtores de tabaco, no Rio Grande do Sul, inclusive produzindo o tabaco Y1, com 3 vezes mais nicotina, exportado para 20 países. Este tabaco é mais viciante do que os demais. O Brasil já assinou a Convenção Quadro, que visa entre outras coisas, estimular o produtor de tabaco a outras atividades.

8. Ouvi dizer que há uma genética no ato de fumar. É verdade? O que é verdade é que se seu pai ou mãe for forte dependente da nicotina, você , se fumar, poderá ter uma dependência semelhante. Não quer dizer que se seu pai fuma você tem tendência a ser fumante, mas sim se você começar a fumar, o nível de dependência será semelhante.

9. Existe realmente este papo de tabagismo passivo? Tanto existe que acabei de publicar um trabalho sobre a dosagem de cotinina (derivado na nicotina) na urina de crianças de 0 a 5 anos de idade atendidas no pronto socorro do Hospital Universitário, e verificamos que 24% destas crianças tem cotinina na urina. São 50% os lares com adultos fumantes, e 24 % das crianças tinham tido contato íntimo com a fumaça do cigarro dos pais nas últimas 24 horas, antes de irem ao pronto socorro.

Esposas não fumantes de maridos fumantes tem 20% de chance a mais de infartar do que esposas não fiumantes de maridos não fumantes.

O mesmo ocorre a chance de terem câncer de pulmão.

Você sabia que há uma lei na cidade de Nova York que cobra US$ 500 dólares de multa se você fumar no seu próprio apartamento?

Pois seu vizinho passa a ser um fumante passivo.

Se essa lei pega aqui no PATROPI (País Tropical)!